
sóis
2021-
aquarela sobre papel
dimensões variáveis
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Sóis é um projeto em andamento, de uma instalação de parede composta por dezenas de pinturas em aquarela. Surge a partir do contato com o filme The Green Ray, da artista inglesa Tacita Dean, para investigar a passagem da linguagem cinematográfica à pintura — não como tradução, mas como deslocamento produtivo.
Dos 24 frames por segundo cinematográfico, organizados sequencialmente para fabricar o movimento em uma temporalidade linear, a instalação em construção vem acumulando planos, de tamanhos e formatos variados, a serem dispostos na parede expositiva de forma embaralhada e constelacional — eliminando a linearidade sequencial do cinema e evidenciando, por sua vez, o intervalo entre cada imagem.
É nesse intervalo que se deseja que o trabalho aconteça. Cada plano em sua variabilidade — na escala do sol, na distância do horizonte, na paleta, no formato do papel — produz, ao se articular no conjunto, um outro tipo de movimento que não está previamente dado, um movimento acidental, ziguezagueante e imaginativo. O olho percorre, articula um conjunto possível e se perde. O movimento surge como sugestão produzindo um outro tipo de tempo. Um tempo fraturado, fragmentário, de incerteza.
O que no cinema é cor-luz em tempo linear, na aquarela se torna cor-pigmento por meio da resistência material entre pigmento, água e papel. Nesse processo manual, há uma irreversibilidade, cada gesto fica aí registrado em camadas e as correções ainda que possíveis deixam suas marcas. Há que se aprender a jogar com os acidentes como aberturas. Enquanto projeto, o trabalho se constrói de forma acumulativa, em séries retomadas ao longo dos anos. Uma prática em andamento, onde a repetição não é exatamente um método, mas a possibilidade sempre renovada de antigas retomadas e de novas descobertas.
Na instalação, a justaposição dos planos de cor-pigmento produz uma experiência de tempo-luz pululante: fragmentos apreendidos em conjunto, de uma só vez, acendem e apagam. Convidam, por assim dizer, à aproximação para uma intimidade com cada plano. As bordas irregulares do papel — distintas em cada peça, recusam a proporção uniforme do frame cinematográfico — afirmando a presença da matéria ali depositada.
Então, o sol como motivo. Nem poente nem nascente, sem localização precisa. Uma indeterminação que suspende qualquer ancoragem geográfica ou temporal. Um clichê romântico e ao mesmo tempo formal, que ao final, talvez nos faça a pergunta. O que há por trás da superfície?
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exibições
2022. Alegorias do imaginário. Exposição coletiva com curadoria de Yasmin Gomes. Sede Social da Assembleia Paraense, Belém, PA.